
estava uma manhã radiosa, verdadeiramente brilhante! daquelas em que dava vontade sair de casa e correr pelas ruas a cantar de felicidade apenas por o dia ter surgido…
ele não tinha casa de onde sair para ir cantar a sua felicidade, mas era esse o sentimento que tinha quando acordou nessa manhã, rodeado de lixo e outros sem-abrigo, crianças como ele que umas vezes se ajudavam e outras lutavam entre si. viviam… sobreviviam!
mas este não era um dia de tristeza… sentia-se invadido de uma alegria que não conseguia, nem queria explicar!
saiu do buraco onde dormia escondido dos vândalos que noite após noite lhe tentavam roubar as suas parcas posses, que se resumiam a uma muda de roupa, rasgada e marcada pelo tempo e uma chave que o acompanhava desde o tempo em que este no internato militar, que não sabia para o que servia, mas que guardava como um verdaeiro tesouro; e foi para o parque lavar-se e passear, aproveitar o dia e tentar servir-se do esplendor deste e da boa disposição que reinava e conseguir pedir dinheiro para o almoço!
quando chegou ao parque esteve quase a voltar para trás e desistir dos seus planos; um enorme cão negro espreitava à entrada e ladrava a todos os que passavam, era o único ser daquela manhã que parecia não estar feliz! mas arriscou e foi mesmo para o parque… necessitava lavar-se, sentia-se sujo, pois já há muito não conseguia tomar um banho, já tinha até perdido a conta dos anos!
à entrada o grande cão também lhe ladrou como a todos os outros, e foi atrás dele, ora rosnando, ora ladrando, mas mantendo-o sempre com medo de ser mordido… lavou-se, sempre a espreitar para o lado, ora com medo que o cão se atirasse a ele, ora com medo de um qualquer guarda que o visse e o fosse prender, como já antes tinham tentado.
foi passear depois de se sentir melhor consigo próprio, embora não limpo e o cão que o seguia desde que entrou no parque continuou com ele, mas já não atrás dele, ia agora ao seu lado, saltitando e ladrando alegremente, como se percebesse que ali tinha encontrado uma alma gémea, mas de vez em quando afastava-se, zangado.
até este momento, ele ainda nunca lhe tinha tocado, estava com receio que o cão não o deixasse, mas reparou que o cão vinha até perto dele com alegria e quando se sentia abandonado, rosnava e fugia… talvez o cão precisasse de um amigo, tal como ele! arriscou, chamou-o e deu-lhe a mão a cheirar para que conhecesse o seu cheiro… o cão cheirou e lambeu a sua mão, de uma forma ávida, com se desde sempre desejasse aquele toque e aquela amizade! fez-lhe uma festa e o cão deitou-se agradado!
tinha arranjado um amigo?
correram juntos pelo parque brincando um com o outro, como nunca antes podiam ter feito, pois para os dois, tinham encontrado finalmente o significado da palavra amizade!