Arquivos Mensais: Abril 2008

estava uma manhã radiosa, verdadeiramente brilhante! daquelas em que dava vontade sair de casa e correr pelas ruas a cantar de felicidade apenas por o dia ter surgido…

ele não tinha casa de onde sair para ir cantar a sua felicidade, mas era esse o sentimento que tinha quando acordou nessa manhã, rodeado de lixo e outros sem-abrigo, crianças como ele que umas vezes se ajudavam e outras lutavam entre si. viviam… sobreviviam!

mas este não era um dia de tristeza… sentia-se invadido de uma alegria que não conseguia, nem queria explicar!

saiu do buraco onde dormia escondido dos vândalos que noite após noite lhe tentavam roubar as suas parcas posses, que se resumiam a uma muda de roupa, rasgada e marcada pelo tempo e uma chave que o acompanhava desde o tempo em que este no internato militar, que não sabia para o que servia, mas que guardava como um verdaeiro tesouro; e foi para o parque lavar-se e passear, aproveitar o dia e tentar servir-se do esplendor deste e da boa disposição que reinava e conseguir pedir dinheiro para o almoço!

quando chegou ao parque esteve quase a voltar para trás e desistir dos seus planos; um enorme cão negro espreitava à entrada e ladrava a todos os que passavam, era o único ser daquela manhã que parecia não estar feliz! mas arriscou e foi mesmo para o parque… necessitava lavar-se, sentia-se sujo, pois já há muito não conseguia tomar um banho, já tinha até perdido a conta dos anos!

à entrada o grande cão também lhe ladrou como a todos os outros, e foi atrás dele, ora rosnando, ora ladrando, mas mantendo-o sempre com medo de ser mordido… lavou-se, sempre a espreitar para o lado, ora com medo que o cão se atirasse a ele, ora com medo de um qualquer guarda que o visse e o fosse prender, como já antes tinham tentado.

foi passear depois de se sentir melhor consigo próprio, embora não limpo e o cão que o seguia desde que entrou no parque continuou com ele, mas já não atrás dele, ia agora ao seu lado, saltitando e ladrando alegremente, como se percebesse que ali tinha encontrado uma alma gémea, mas de vez em quando afastava-se, zangado.

até este momento, ele ainda nunca lhe tinha tocado, estava com receio que o cão não o deixasse, mas reparou que o cão vinha até perto dele com alegria e quando se sentia abandonado, rosnava e fugia… talvez o cão precisasse de um amigo, tal como ele! arriscou, chamou-o e deu-lhe a mão a cheirar para que conhecesse o seu cheiro… o cão cheirou e lambeu a sua mão, de uma forma ávida, com se desde sempre desejasse aquele toque e aquela amizade! fez-lhe uma festa e o cão deitou-se agradado!

tinha arranjado um amigo?

correram juntos pelo parque brincando um com o outro, como nunca antes podiam ter feito, pois para os dois, tinham encontrado finalmente o significado da palavra amizade!

avançou pobre e rasgado, mas com o orgulho de ser já veterano nestas andanças da vida na rua e da sobrevivência do nada para a pessoa que viu na rua, para pedir um pouco da sua aparente riqueza!

não pedia para viver, mas para sobreviver! para passar mais um dia, com frio, sem conforto, sem local onde ficar… mas com menos fome!

foi rechaçado mesmo antes de chegar perto do homem com um sonoro vadios! deviam morrer todos…, que não lhe pareceu mal, já estava habituado a que lhe desejassem a morte desde que nasceu!

mas houve algo naquele momento que lhe havia de ficar na memória para sempre… o homem a quem se dirigiu proferiu estas palavras mas parou, apenas por um momento parou e olhou-o nos olhos e ele sentiu um calafrio, como se tivesse acabado de ser olhado por um completo estranho, que não o devia ser e teve a certeza que os seus caminhos ainda voltariam a cruzar-se… só o tempo haveria de lhe dar razão!

nesse dia não comeu, pois não conseguiu arranjar coragem para pedir dinheiro ou comida a ninguém mais… aquele momento foi o principio de uma nova vida!