Arquivos Mensais: Março 2008

 

 

em pouco tempo a cidade mostrou-lhe que apenas os mais fortes sobrevivem!

ele sobreviveu, pois era forte e tinha vontade de viver, tinha vontade de experimentar e provar a vida e tudo o que esta tinha para lhe dar, mal grado as privações, os maus tratos, o escárnio e mal dizer das pessoas na rua para os seus trapos; os trapos que lhe serviam de roupa!

o tempo e a cidade ensinaram-no a sobreviver… pedidndo e mendigando nas portas da igrejas, onde as pessoas se sentem culpadas por terem mais que outros e lhe davam sempre dinheiro que ele administrava com muita sabedoria, que vinha da sua necessidade e por isso lhe dava para uns dias e uma peça de fruta aqui ou um pedaço de pão ali… roubando quando o dinheiro acabava! pequenos roubos, apenas para sobreviver, afinal podia não ter gostado da sua educação, mas tinha aprendido que roubar era errado, mesmo que fosse para matar a fome!

 

sozinho, abandonado, faminto, fugitivo… feliz!

foi assim que aos 9 anos de idade, passou a viver na rua. não tinha nada, mas de nada precisava, alimentava-se do que encontrava e do que algumas almas caridosas, que ao ver uma criança na rua, lhe iam dando!

sobreviveu durante muito tempo desta forma; quanto não sabe dizer… sabe que durante algum desse tempo foi feliz, mas com uma ponta de desapontamento… tinha razão, ninguém o procurou! olhava para as televisões nas montras com um misto de medo e esperança… medo de se ver nas notícias, de saber que era procurado e esperança de estar enganado e que os pais afinal se preocupassem com ele… mas tinha razão, ninguém o procurou!

com o tempo, a felicidade desvaneceu-se, a vida real bateu-lhe à porta que não tinha. por esta altura já estava marcado pelo tempo, pelo sol e pelo frio, marcado por uma vida inteira de experiências que, sabia agora nunca ninguém devia ter!

acabou o encanto, morreu a criança, nasceu o homem!

fugiu… fugiu até não poder correr correr mais e então andou… andou até não conseguir aguentar nem outro passo além de todos os que já o tinham afastado do seu inferno!
talvez o procurassem, pensou! e se o procurassem, talvez o encontrassem… certamente que da escola informariam os pais; não que se importassem, mas porque a isso eram obrigados, afinal quando lá tinha sido despejado pelos pais, passaram a ser responsáveis por ele… como se necessitasse que alguém se responsabilizasse por ele!
pensou em continuar a fugir para não poder ser encontrado, mas pensou e soube que os pais não o procurariam! soube que os pais ficariam aliviados por ele ter desaparecido! certamente fingiriam preocupações e choros durante alguns dias, mas depois voltariam à sua alegre vida, como se ele nunca tivesse existido, afinal como sempre se comportaram!
ficou ali, quieto no escuro, sem comida e sem bebida… não se tinha lembrado que teria continuar a comer e beber depois de fugir do seu inferno… mas pela primeira vez na vida sentia-se feliz; era livre…

 

a estrada nacional 125 que liga o algarve de lés a lés é hoje uma «avenida» semi-urbana, povoada de rotundas, semáforos, passadeiras para peões, limites de velocidade entre outros limites à condução. há não muito tempo esta era uma das estradas mais mortíferas da europa e a sua aura de via altamente perigosa não se extinguiu.

esta terça-feira esteve razoavelmente amena quando comparada com a tormenta dos fim-de-semana. quase não choveu. o sol apareceu repetidamente e a temperatura subiu. depois do jantar a três em em tavira, regressei a casa pela en 125. a noite trouxe uns chuviscos breves suficientes para molhar o pavimento. cheguei ao troço entre alfandanga e quatrim. estes quilómetros de estrada fazem parte no meu «quintal» de infância. desde tenra idade que conheço cada metro deste pedaço de alcatrão. percorri-a vezes sem conta de bicicleta a pedal ou mesmo a pé quando o tráfego era muito menor. atravessei o asfalto milhentas vezes durante os 4 anos que frequentei a escola primária de bias. vivendo eu junto ao mar no extremo sul de portugal era travessia obrigatória. na direcção oposta de minha casa até ao fim do território não distavam mais de 500 metros e depois era a ria formosa e o atlântico: o fim do mundo.

por vezes, ao passar naquele preciso metro de estrada onde o bando de crianças, de que eu fazia parte, vindo do sul, atravessava diariamente lembro a helena. a helena era um desses pardalitos alegres que fazia todos os dias três quilómetros a pé, brincando e saltando ou simplesmente caminhando apressadamente para ir aprender a ler e a escrever. até que um dia, já com os trabalhos de casa para o dia seguinte apontados no caderno, se preparava para atravessar mais uma vez a estreita faixa de asfalto. foi nentão que um automóvel a colheu brutalmente, interrompendo a sua curta vida, enlutando a família e roubando-nos, ali, diante dos nossos olhos a colega de escola, a amiguinha, a menina bonita que nunca chegou a aprender a ler e a escrever. fomos todos num autocarro ao funeral e os nossos pais nunca mais nos mandaram para a escola sem pensarem na helena que um dia foi e não voltou nunca mais.

aquela zona está hoje povoada por sinais luminosos de controlo de velocidade. desde a subida de alfandanga, junto à estrada que leva à fuzeta, até ao sítio dos cavacos encontram-se cinco semáforos. habituei-me a fazer esse troço de forma a não avermelhar nenhum deles, não que seja um condutor irrepreensível, mas porque sei do perigo que espreita naquelas curvas rodeadas de casas onde moram muitas helenas em potencial. e hoje não foi excepção. ao segundo controlo vinha decidido acumprir o limite de velocidade, quando uma outra viatura se aproximou em velocidade excessiva ignorando semáforo. não fora eu o culpado, mas aguardei que voltasse a verde. atrás de mim senti que o outro condutor se impacientava. avancei quando o verde voltou e rapidamente fui ultrapassado. o terceiro sinal luminoso distava apenas uns curtos 500 metros e ia ficar vermelho. o individuo acelerou. o semáforo passou a vermelho. ignorou. aumentou a velocidade enquanto eu me aproximei fazendo tempo para que o verde regressasse. ao longe o carro branco desaparecia. surpresa! no primeiro cruzamento tentou virar à direita. travou. o piso molhado. o reclamar dos pneus. a traseira que se antecipa. o muro que não se desvia. um impacto seco. o guarda-lamas traseiro esquerdo todo amarrotado.

parei. – precisa de ajuda? não está ferido pois não? quase me desmanchava a rir. o individuo fomegava pelos narizes: caralho! porra! merda para isto! foda-se!… e eu continha-me afogando uma gargalhada. – veja lá se precisa de ajuda?

nota: como se percebe, esta estória não é minha, encontrei neste imenso mundo que é a internet! fonte: blog “de corpo e alma”

e o tempo passou e a sua adaptação à vida que lhe tinham escolhido não melhorou!
lutou por se integrar, lutou para ser igual aos outros, mas ele era diferente… muito diferente!
acabou por se resignar ao seu destino; depois da cena com o guilherme e o sr. vaz, nunca mais teve amigos, refugiou-se no seu mundo e habituou-se a ser gizado, batido, molhado… alvo de todas as chacotas e brincadeiras dos colegas que nunca perdiam uma oportunidade para o lembrar que ele era diferente deles e que o incluiam nas suas vidas apenas por obrigação dos superiores e em forma de desprezo!
tudo piorava a cada dia, a cada visita que todos os colegas tinham e ele não! os pais não o visitavam, talvez achassem perda de tempo sair do conforto das suas vidas e do seu lar para visitar tão incómoda pessoa… se é que o consideravam uma pessoa!
talvez por isso naquele dia fugiu; não através da sua mente, isso era algo que fazia diariamente.
depois da hora de recolher obrigatório de mais um dia de sofrimento à mão de professores, colegas e todos os que o rodeavam, juntou junto a si aquilo que realmente estimava; dois livros, um grosso bloco para escrever e um par de canetas e saiu na calada da noite sabendo que nunca mais voltaria aquele lugar, mas que talvez um dia viesse a ter saudades…