
em tempos que já lá vão, ainda o outeiro pertencia a cuba, vivia ali um jovem casal de mouros. ele chamava-se achmed; era um bonito mouro, alto, moreno, de cabelos muito negros e olhos da mesma cor, muito alegre. ela chamava-se hanna; muito bonita e esbelta, a pele morena clara, os cabelos longos e negros que penteava em trança durante o dia e nas noites de luar gostava de os soltar ao vento. e o seu amado achmed cantava baladas muito suaves que quase imitavam a água de uma fonte.
viviam felizes ali, no lugar do outeiro, que era muito sossegado, rodeado de um belo laranjal, amendoeiras e belíssimas palmeiras, cujas tâmaras eram queridas por toda as gentes, muitas léguas em redor, tendo até fama no califado de córdova.
até que um dia, a península começou a ser invadida por um povo bárbaro, de pele muito branca, de cabelos amarelos e que falavam uma língua muito estranha. eram muito destruidores, por onde passavam só deixavam miséria, destruição e infelicidade à sua volta. achmed ouviu falar assim dessa gente bárbara a uns viajantes que passaram pelo outeiro, mas não deu importância a esse facto e nada comentou com hanna para a não preocupar.
já nem se lembrava da conversa dos viajantes quando, numa madrugada iluminada pelo luar foi acordado por um grande barulho de vozes e resfolgar de cavalos; pensou que fossem viajantes ou compradores de tâmaras. levantou-se e foi espreitar para ver se via alguém.
quando ia a sair, por uma frincha que havia na porta, viu um homem que, ao ser iluminado por um archote, os seus cabelos muito amarelos pareciam açafrão e a pele muito branca, à luz da lua e dos archotes parecia mais branca do que na realidade era. lembrou-se então, da conversa dos viajantes.
ficou muito preocupado. foi acordar hanna, mandou-a esconder-se numa gruta ao lado da casa e tapar a entrada que ele ia ver o que aquela gente queria.
hanna assim fez. escondeu-se com a ajuda de achmed, que tapou a entrada da gruta, disfarçando-a muito bem. hanna já em segurança ficou à espreita por uma fresta que havia na gruta. e viu que achmed se dirigia para os bárbaros com o seu ar amistoso de sorriso no rosto, iluminado pela lua.
assim que se aproximou de um dos bárbaros, este com uma lança feriu-o, lançando-o logo por terra. e viu como mal tratavam o seu amado, como lhe rasgavam as roupas e esquartejavam o corpo.
ela gritou sem ser ouvida; tentou a todo o custo sair da gruta para ir em auxílio de achmed mas, não teve forças para afastar a pedra que tapava a entrada da gruta. viu tudo, sem poder fazer nada; viu o seu amado ferido de morte, o seu lugar tão bonito ser destruído e viu colocarem dois paus atados no cimo do outeiro. viu como aquela gente bárbara se ajoelhava diante desses paus e gritavam palavras que não entendia.
sem poder fazer nada, chorou, chorou muito, lágrimas de sangue pelo seu amado achmed.
essas lágrimas tantas, tantas … começaram a sair pela fresta existente na gruta, e hoje é uma fonte, cujas águas frescas formam um pequenino lago avermelhado. dizem que são águas ferrosas, mas nós sabemos que a verdade é outra – são as lágrimas de sangue de hanna que ainda hoje chora o seu amado e que nas noites de luar se passeia no lugar do outeiro de cabelos soltos e ao longe ouve-se cantar uma melodia muito suave que quase imita o correr fresco e cristalino da água de uma fonte.