a vida é dificil e tudo na sua lhe tinha provado esta máxima! mas ele não desistiu, nunca desistiria de viver pois sente-se feliz por estar vivo e poder ver todos os dias as maravilhas da mãe terra! estava acorrentado à vida!!!

mas nada o podia preparar para o que ia acontecer; nada o podia prepara para tão grande reviravolta! nem a ele, nem a ninguém na sua situação…

o homem com quem diariamente se cruzava no parque, a quem ele simplesmente chamava o homem, aquele que o olhava como se ele fosse lixo, veio até ele e falou-lhe… falou com ele e ao contrário do que poderia pensar, não o hostilizou, mas sim ofereceu-lhe uma saída da sobrevivência e uma entrada na vida! ofereceu-lhe um trabalho…

pagava pouco e o trabalho seria muito, mas tudo era melhor do que aquilo que (não) tinha… tornou-se o faz tudo na empresa do sr. silva, a quem todos os empregados respeitavam pela sua extrema dedicação ao trabalho e à empresa!

era a luz ao fundo do túnel que toda a vida tinha procurado…

o ano passou, passou mais um dia da sua vida!

16 anos tinham passado desde que a mãe o protegeu pela primeira vez e o pai o ignorou. ignorava também ele se tinham passado 16 anos exactos, algo mais ou algo menos; não sabia em que dia tinha nascido; já era muito velho para se lembrar dessas trivialidades sem interesse!

mas estava decidido, ia mudar a sua vida neste novo dia, neste novo ano! ao fim de 7 anos a viver, muitas vezes sobreviver, nas ruas da cidade que o vira nascer resolveu tentar encontrar a sua vida e conquistá-la de volta!

a pergunta que se fazia a si mesmo era: como?

devia procurar os pais?

devia procurar as freiras que em tempos o tentaram ajudar?

devia simplesmente ir ao balneário público, tomar um banho e partir à luta, sem olhar para o lado? procurar um emprego na sua situação e com a sua idade não seria fácil, mas ele estava disposto a tudo!

voltar para o colégio militar não era uma opção, mas ele encarava-a na mesma, podia ser um ponto de partida…

quem sabe, num lampejo de coragem, podia pedir ajuda aquele homem com quem se costuma cruzar no jardim e que o olhava sempre com desdém… mas olhava para si!

o último dia do ano; fim de ano para quem tem algo ou até mesmo reveillon para quem tem muito, chegou… era a passagem para um novo ano, uma nova vida, ou no caso dele, a passagem para o mesmo de sempre, para o mesmo nada que povoava a sua vida desde o inicio!

passou no seu parque, com aqueles outros que ali passavam a sua triste vida; sem nunca os conhecer, sem nunca lhes ter falado. e este dia não foi excepção, não havia razão para o ser! foi apenas mais um…

em toda a cidade se viam pessoas em festa, a correr apressadas de um lado para o outro, sempre alegres e bem dispostas, a rir e a espalhar alegria. por toda a parte se ouviam foguetes, fogo de artíficio… que aos ouvidos dele soava realmente a artificial!

ele… fruto da generosidade alheia lá conseguiu arranjar uma sanduiche e um pacote de leite que alguém simpático lhe ofereceu com a alegria prórpia desta época! sentiu-se agradecido por isso e pensou que cada pode fazer da sua vida o que quiser, desde que o queira!

tomou uma desição de fim de ano! iria mudar a sua vida, iria tentar encontrar os seus pais que nunca o procuraram para assim poder ter uma vida “normal”! desta vez poderia correr melhor. ao menos agora sabia que já não o poderiam prender em casa…

tudo o que tem um princípio tem um fim, dizem os ditados populares… igualmente verdade é o oposto, tudo o que um dia chega ao fim, teve um dia um começo…

o começo foi o nascimento…. foi a escola… foi a fuga…. foi a rua… foi a vida… o começo foi a sua vida, embora tenha sido feita quase exclusivamente de pequenos fins!

já era adulto há muito embora não contasse ainda com mais do que 12 invernos na sua vida. vivia e sobrevivia agora com a vontade de sempre, a vontade da criança que nunca foi forte, mas sempre soube passar “por baixo dos radares”!

a sua vida mudou no dia em que alguém afirmou na sua cara que todos os vadios deviam morrer…; ficou a pensar nisso!

o que podia ele fazer para mudar a sua sorte e a sua vida?

o homem que lhe desejou a morte nesse dia, era visita comum ao “seu” parque e sempre que se viam, olhavam-se mutuamente com um misto de curiosidade e ódio velado!

talvez houvesse ali algo que nenhum deles ignorava, mas nenhum deles via claramente!

estava uma manhã radiosa, verdadeiramente brilhante! daquelas em que dava vontade sair de casa e correr pelas ruas a cantar de felicidade apenas por o dia ter surgido…

ele não tinha casa de onde sair para ir cantar a sua felicidade, mas era esse o sentimento que tinha quando acordou nessa manhã, rodeado de lixo e outros sem-abrigo, crianças como ele que umas vezes se ajudavam e outras lutavam entre si. viviam… sobreviviam!

mas este não era um dia de tristeza… sentia-se invadido de uma alegria que não conseguia, nem queria explicar!

saiu do buraco onde dormia escondido dos vândalos que noite após noite lhe tentavam roubar as suas parcas posses, que se resumiam a uma muda de roupa, rasgada e marcada pelo tempo e uma chave que o acompanhava desde o tempo em que este no internato militar, que não sabia para o que servia, mas que guardava como um verdaeiro tesouro; e foi para o parque lavar-se e passear, aproveitar o dia e tentar servir-se do esplendor deste e da boa disposição que reinava e conseguir pedir dinheiro para o almoço!

quando chegou ao parque esteve quase a voltar para trás e desistir dos seus planos; um enorme cão negro espreitava à entrada e ladrava a todos os que passavam, era o único ser daquela manhã que parecia não estar feliz! mas arriscou e foi mesmo para o parque… necessitava lavar-se, sentia-se sujo, pois já há muito não conseguia tomar um banho, já tinha até perdido a conta dos anos!

à entrada o grande cão também lhe ladrou como a todos os outros, e foi atrás dele, ora rosnando, ora ladrando, mas mantendo-o sempre com medo de ser mordido… lavou-se, sempre a espreitar para o lado, ora com medo que o cão se atirasse a ele, ora com medo de um qualquer guarda que o visse e o fosse prender, como já antes tinham tentado.

foi passear depois de se sentir melhor consigo próprio, embora não limpo e o cão que o seguia desde que entrou no parque continuou com ele, mas já não atrás dele, ia agora ao seu lado, saltitando e ladrando alegremente, como se percebesse que ali tinha encontrado uma alma gémea, mas de vez em quando afastava-se, zangado.

até este momento, ele ainda nunca lhe tinha tocado, estava com receio que o cão não o deixasse, mas reparou que o cão vinha até perto dele com alegria e quando se sentia abandonado, rosnava e fugia… talvez o cão precisasse de um amigo, tal como ele! arriscou, chamou-o e deu-lhe a mão a cheirar para que conhecesse o seu cheiro… o cão cheirou e lambeu a sua mão, de uma forma ávida, com se desde sempre desejasse aquele toque e aquela amizade! fez-lhe uma festa e o cão deitou-se agradado!

tinha arranjado um amigo?

correram juntos pelo parque brincando um com o outro, como nunca antes podiam ter feito, pois para os dois, tinham encontrado finalmente o significado da palavra amizade!

avançou pobre e rasgado, mas com o orgulho de ser já veterano nestas andanças da vida na rua e da sobrevivência do nada para a pessoa que viu na rua, para pedir um pouco da sua aparente riqueza!

não pedia para viver, mas para sobreviver! para passar mais um dia, com frio, sem conforto, sem local onde ficar… mas com menos fome!

foi rechaçado mesmo antes de chegar perto do homem com um sonoro vadios! deviam morrer todos…, que não lhe pareceu mal, já estava habituado a que lhe desejassem a morte desde que nasceu!

mas houve algo naquele momento que lhe havia de ficar na memória para sempre… o homem a quem se dirigiu proferiu estas palavras mas parou, apenas por um momento parou e olhou-o nos olhos e ele sentiu um calafrio, como se tivesse acabado de ser olhado por um completo estranho, que não o devia ser e teve a certeza que os seus caminhos ainda voltariam a cruzar-se… só o tempo haveria de lhe dar razão!

nesse dia não comeu, pois não conseguiu arranjar coragem para pedir dinheiro ou comida a ninguém mais… aquele momento foi o principio de uma nova vida!

 

 

em pouco tempo a cidade mostrou-lhe que apenas os mais fortes sobrevivem!

ele sobreviveu, pois era forte e tinha vontade de viver, tinha vontade de experimentar e provar a vida e tudo o que esta tinha para lhe dar, mal grado as privações, os maus tratos, o escárnio e mal dizer das pessoas na rua para os seus trapos; os trapos que lhe serviam de roupa!

o tempo e a cidade ensinaram-no a sobreviver… pedidndo e mendigando nas portas da igrejas, onde as pessoas se sentem culpadas por terem mais que outros e lhe davam sempre dinheiro que ele administrava com muita sabedoria, que vinha da sua necessidade e por isso lhe dava para uns dias e uma peça de fruta aqui ou um pedaço de pão ali… roubando quando o dinheiro acabava! pequenos roubos, apenas para sobreviver, afinal podia não ter gostado da sua educação, mas tinha aprendido que roubar era errado, mesmo que fosse para matar a fome!

 

sozinho, abandonado, faminto, fugitivo… feliz!

foi assim que aos 9 anos de idade, passou a viver na rua. não tinha nada, mas de nada precisava, alimentava-se do que encontrava e do que algumas almas caridosas, que ao ver uma criança na rua, lhe iam dando!

sobreviveu durante muito tempo desta forma; quanto não sabe dizer… sabe que durante algum desse tempo foi feliz, mas com uma ponta de desapontamento… tinha razão, ninguém o procurou! olhava para as televisões nas montras com um misto de medo e esperança… medo de se ver nas notícias, de saber que era procurado e esperança de estar enganado e que os pais afinal se preocupassem com ele… mas tinha razão, ninguém o procurou!

com o tempo, a felicidade desvaneceu-se, a vida real bateu-lhe à porta que não tinha. por esta altura já estava marcado pelo tempo, pelo sol e pelo frio, marcado por uma vida inteira de experiências que, sabia agora nunca ninguém devia ter!

acabou o encanto, morreu a criança, nasceu o homem!

fugiu… fugiu até não poder correr correr mais e então andou… andou até não conseguir aguentar nem outro passo além de todos os que já o tinham afastado do seu inferno!
talvez o procurassem, pensou! e se o procurassem, talvez o encontrassem… certamente que da escola informariam os pais; não que se importassem, mas porque a isso eram obrigados, afinal quando lá tinha sido despejado pelos pais, passaram a ser responsáveis por ele… como se necessitasse que alguém se responsabilizasse por ele!
pensou em continuar a fugir para não poder ser encontrado, mas pensou e soube que os pais não o procurariam! soube que os pais ficariam aliviados por ele ter desaparecido! certamente fingiriam preocupações e choros durante alguns dias, mas depois voltariam à sua alegre vida, como se ele nunca tivesse existido, afinal como sempre se comportaram!
ficou ali, quieto no escuro, sem comida e sem bebida… não se tinha lembrado que teria continuar a comer e beber depois de fugir do seu inferno… mas pela primeira vez na vida sentia-se feliz; era livre…

 

a estrada nacional 125 que liga o algarve de lés a lés é hoje uma «avenida» semi-urbana, povoada de rotundas, semáforos, passadeiras para peões, limites de velocidade entre outros limites à condução. há não muito tempo esta era uma das estradas mais mortíferas da europa e a sua aura de via altamente perigosa não se extinguiu.

esta terça-feira esteve razoavelmente amena quando comparada com a tormenta dos fim-de-semana. quase não choveu. o sol apareceu repetidamente e a temperatura subiu. depois do jantar a três em em tavira, regressei a casa pela en 125. a noite trouxe uns chuviscos breves suficientes para molhar o pavimento. cheguei ao troço entre alfandanga e quatrim. estes quilómetros de estrada fazem parte no meu «quintal» de infância. desde tenra idade que conheço cada metro deste pedaço de alcatrão. percorri-a vezes sem conta de bicicleta a pedal ou mesmo a pé quando o tráfego era muito menor. atravessei o asfalto milhentas vezes durante os 4 anos que frequentei a escola primária de bias. vivendo eu junto ao mar no extremo sul de portugal era travessia obrigatória. na direcção oposta de minha casa até ao fim do território não distavam mais de 500 metros e depois era a ria formosa e o atlântico: o fim do mundo.

por vezes, ao passar naquele preciso metro de estrada onde o bando de crianças, de que eu fazia parte, vindo do sul, atravessava diariamente lembro a helena. a helena era um desses pardalitos alegres que fazia todos os dias três quilómetros a pé, brincando e saltando ou simplesmente caminhando apressadamente para ir aprender a ler e a escrever. até que um dia, já com os trabalhos de casa para o dia seguinte apontados no caderno, se preparava para atravessar mais uma vez a estreita faixa de asfalto. foi nentão que um automóvel a colheu brutalmente, interrompendo a sua curta vida, enlutando a família e roubando-nos, ali, diante dos nossos olhos a colega de escola, a amiguinha, a menina bonita que nunca chegou a aprender a ler e a escrever. fomos todos num autocarro ao funeral e os nossos pais nunca mais nos mandaram para a escola sem pensarem na helena que um dia foi e não voltou nunca mais.

aquela zona está hoje povoada por sinais luminosos de controlo de velocidade. desde a subida de alfandanga, junto à estrada que leva à fuzeta, até ao sítio dos cavacos encontram-se cinco semáforos. habituei-me a fazer esse troço de forma a não avermelhar nenhum deles, não que seja um condutor irrepreensível, mas porque sei do perigo que espreita naquelas curvas rodeadas de casas onde moram muitas helenas em potencial. e hoje não foi excepção. ao segundo controlo vinha decidido acumprir o limite de velocidade, quando uma outra viatura se aproximou em velocidade excessiva ignorando semáforo. não fora eu o culpado, mas aguardei que voltasse a verde. atrás de mim senti que o outro condutor se impacientava. avancei quando o verde voltou e rapidamente fui ultrapassado. o terceiro sinal luminoso distava apenas uns curtos 500 metros e ia ficar vermelho. o individuo acelerou. o semáforo passou a vermelho. ignorou. aumentou a velocidade enquanto eu me aproximei fazendo tempo para que o verde regressasse. ao longe o carro branco desaparecia. surpresa! no primeiro cruzamento tentou virar à direita. travou. o piso molhado. o reclamar dos pneus. a traseira que se antecipa. o muro que não se desvia. um impacto seco. o guarda-lamas traseiro esquerdo todo amarrotado.

parei. – precisa de ajuda? não está ferido pois não? quase me desmanchava a rir. o individuo fomegava pelos narizes: caralho! porra! merda para isto! foda-se!… e eu continha-me afogando uma gargalhada. – veja lá se precisa de ajuda?

nota: como se percebe, esta estória não é minha, encontrei neste imenso mundo que é a internet! fonte: blog “de corpo e alma”

e o tempo passou e a sua adaptação à vida que lhe tinham escolhido não melhorou!
lutou por se integrar, lutou para ser igual aos outros, mas ele era diferente… muito diferente!
acabou por se resignar ao seu destino; depois da cena com o guilherme e o sr. vaz, nunca mais teve amigos, refugiou-se no seu mundo e habituou-se a ser gizado, batido, molhado… alvo de todas as chacotas e brincadeiras dos colegas que nunca perdiam uma oportunidade para o lembrar que ele era diferente deles e que o incluiam nas suas vidas apenas por obrigação dos superiores e em forma de desprezo!
tudo piorava a cada dia, a cada visita que todos os colegas tinham e ele não! os pais não o visitavam, talvez achassem perda de tempo sair do conforto das suas vidas e do seu lar para visitar tão incómoda pessoa… se é que o consideravam uma pessoa!
talvez por isso naquele dia fugiu; não através da sua mente, isso era algo que fazia diariamente.
depois da hora de recolher obrigatório de mais um dia de sofrimento à mão de professores, colegas e todos os que o rodeavam, juntou junto a si aquilo que realmente estimava; dois livros, um grosso bloco para escrever e um par de canetas e saiu na calada da noite sabendo que nunca mais voltaria aquele lugar, mas que talvez um dia viesse a ter saudades…

o tempo passou e a situação não melhorou… continuava a sentir-se um estranho na pele que ocupava.

 

ainda com terna idade, ainda um bebé demasiado crescido para a sua idade tentou integrar-se numa sociedade na qual verificava sem dúvida nenhuma, não estar preparada para ele!

 

fez tudo o que podia para ser expulso e poder voltar para a sua extremosa e para o seu pai ausente, mas por muito que tentasse, por muitas vezes que chamassem os seus pais para o levar… estes pagavam sempre mais e mais para não ter de o levar para casa…

 

mais uma vez, teve a sensação que os pais fariam tudo para não ter de o ver! não era a primeira vez que o sentia e certamente não seria a última!

 

ao contrário do habitual, sentia-se um lobo em pele de cordeiro…

o castigo foi físico, doloroso e duradouro!
o senhor vaz estava realmente mal disposto quando os foi buscar a ambos, às 5 da manhã e os obrigou a  vestir em completo silêncio e também em completo silêncio sair da camarata e acompanhá-lo pelos campos!
foram ter a um extenso campo com apenas uma construção no centro, aparentemente outra camarata e o sargento explicou-lhes que o castigo castigo existia para formá-los como homens, algo que as crianças não perceberam! … mas algo que tinham de cumprir…
entraram no edifício e como se adultos fossem, o sargento vaz ordenou-lhes que fossem para os quartos, que ficaram a saber eram dos oficiais da escola e começassem a arrumar as camas, que propositadamente tinham já ficado desfeitas… nesse dia, as duas crianças fizeram e voltaram a fazer as camas dos oficiais até o senhor vaz achar que ja era suficiente; faltaram à escola, não viram ninguém todo o dia… acabaram extenuados e no final ele perguntou a si próprio…
será que os seus pais sabiam daquilo? certamente que sim, afinal tinham sido eles a enviá-lo para lá!
será que se importavam como que lhe acontecia?…

em tempos que já lá vão, ainda o outeiro pertencia a cuba, vivia ali um jovem casal de mouros. ele chamava-se achmed; era um bonito mouro, alto, moreno, de cabelos muito negros e olhos da mesma cor, muito alegre. ela chamava-se hanna; muito bonita e esbelta, a pele morena clara, os cabelos longos e negros que penteava em trança durante o dia e nas noites de luar gostava de os soltar ao vento. e o seu amado achmed cantava baladas muito suaves que quase imitavam a água de uma fonte.

 

 

viviam felizes ali, no lugar do outeiro, que era muito sossegado, rodeado de um belo laranjal, amendoeiras e belíssimas palmeiras, cujas tâmaras eram queridas por toda as gentes, muitas léguas em redor, tendo até fama no califado de córdova.

 

 

até que um dia, a península começou a ser invadida por um povo bárbaro, de pele muito branca, de cabelos amarelos e que falavam uma língua muito estranha. eram muito destruidores, por onde passavam só deixavam miséria, destruição e infelicidade à sua volta. achmed ouviu falar assim dessa gente bárbara a uns viajantes que passaram pelo outeiro, mas não deu importância a esse facto e nada comentou com hanna para a não preocupar.

 

 

já nem se lembrava da conversa dos viajantes quando, numa madrugada iluminada pelo luar foi acordado por um grande barulho de vozes e resfolgar de cavalos; pensou que fossem viajantes ou compradores de tâmaras. levantou-se e foi espreitar para ver se via alguém.

 

 

quando ia a sair, por uma frincha que havia na porta, viu um homem que, ao ser iluminado por um archote, os seus cabelos muito amarelos pareciam açafrão e a pele muito branca, à luz da lua e dos archotes parecia mais branca do que na realidade era. lembrou-se então, da conversa dos viajantes.

 

 

ficou muito preocupado. foi acordar hanna, mandou-a esconder-se numa gruta ao lado da casa e tapar a entrada que ele ia ver o que aquela gente queria.

 

 

hanna assim fez. escondeu-se com a ajuda de achmed, que tapou a entrada da gruta, disfarçando-a muito bem. hanna já em segurança ficou à espreita por uma fresta que havia na gruta. e viu que achmed se dirigia para os bárbaros com o seu ar amistoso de sorriso no rosto, iluminado pela lua.

 

 

assim que se aproximou de um dos bárbaros, este com uma lança feriu-o, lançando-o logo por terra. e viu como mal tratavam o seu amado, como lhe rasgavam as roupas e esquartejavam o corpo.

 

 

ela gritou sem ser ouvida; tentou a todo o custo sair da gruta para ir em auxílio de achmed mas, não teve forças para afastar a pedra que tapava a entrada da gruta. viu tudo, sem poder fazer nada; viu o seu amado ferido de morte, o seu lugar tão bonito ser destruído e viu colocarem dois paus atados no cimo do outeiro. viu como aquela gente bárbara se ajoelhava diante desses paus e gritavam palavras que não entendia.

 

 

sem poder fazer nada, chorou, chorou muito, lágrimas de sangue pelo seu amado achmed.

essas lágrimas tantas, tantas … começaram a sair pela fresta existente na gruta, e hoje é uma fonte, cujas águas frescas formam um pequenino lago avermelhado. dizem que são águas ferrosas, mas nós sabemos que a verdade é outra – são as lágrimas de sangue de hanna que ainda hoje chora o seu amado e que nas noites de luar se passeia no lugar do outeiro de cabelos soltos e ao longe ouve-se cantar uma melodia muito suave que quase imita o correr fresco e cristalino da água de uma fonte.

estava pela primeira vez na vida num local com outras crianças da sua idade… tenho em crer que até algum momento ele pensou ser a única criança do mundo, pois nunca tinha visto nenhuma.
estava pela primeira vez num local com crianças das sua idade… dormia num quarto enorme com algumas delas… e nunca podia conversar com elas! ainda tentou algumas vezes meter conversa, mas tinha sempre apenas silêncio de resposta…
mas ele queria sentir o que era calor humano, queria fazer amigos… de tal forma desesperada que tentou algo que nunca tinha sido ensinado. no meio da noite saiu da sua cama e foi ter com um colega que lhe parecia desejar falar tanto quanto ele! e tinha razão, o guilherme, desde logo apelidado de gui com muita afeição, tornou-se no seu melhor e único amigo no mesmo momento em que se olharam!
mas eles não estavam num local onde pudessem conversar à vontade e assim, na terceira noite de companhia, aventuraram-se e saíram para ver a lua e as estrelas, mas o que viram logo à saída do dormitório foi o sr. vaz, o sargento vaz, que os mandou de imediato para a cama com a promessa de um castigo pela manhã!